quarta-feira, 22 de julho de 2020


Inventar um rosto 
para a alegria. 
Inventar um tempo
para o riso.
Inventar um abraço
para encurtar
as distâncias. 
Re-inventar a vida.


Tia Vera e minha mãe.
Foto de acervo pessoal.
Julho de 2020.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

DO QUE VOCÊ NÃO SABE


Queria escrever um poema sobre esse dia e o quanto ele ficou mais bonito depois que você entrou na minha vida. Queria mandar uma carta cheia de significados, daquelas que dizem tanto - nas linhas e entrelinhas. Queria te contar que quando o meu coração tá pequenininho eu penso em te ligar e pedir pra você me dizer alguma coisa bonita, dessas coisas que aquecem a gente por dentro, dessas coisas que oferecem abrigo, aconchego. Queria te mandar um áudio imenso soletrando palavras bonitas e desejando que todas elas aconteçam na sua vida. Queria subir num balão e ir ao seu encontro - flutuando. E te abraçar enorme, desses abraços que são casa. E te dizer que vai ficar tudo bem. E te desejar, pessoalmente, um feliz aniversário. É hoje, né? Já são 10 anos e eu sempre me lembro. Pena que você não sabe. 


08 de julho - 
aniversário de um amigo

                                                Imagem: © Joel Robison

terça-feira, 23 de junho de 2020

OS DIAS FICARAM LINDOS

Se você parar pra pensar 
é tudo muito mais simples do que aparenta. 
Outro dia eu tava caminhando, 
como quem não sabe aonde vai 
- quem é que sabe? - 
e, de repente, um susto:
esse chão rosa inteirinho pra mim. 
Alguém me diz:
- e daí, foram só umas flores que caíram, 
acontece todo dia. 
Não acontece não, meu amigo.
Cada flor só cai uma única vez.
E eu tava lá, bem debaixo,
quando elas resolveram se soltar
e saltar em cima de mim,
parecia mágica. 
Centenas de flores me abraçando
e dizendo que, de alguma maneira, 
o caminho pode ser bonito,
mesmo que não seja fácil. 
Nessas horas a gente sorri e agradece 
(e fotografa). 




"Cheiro pingado, 
respingado, 
risonho, 
cheiro de alegriazinha..." 

(Guimarães Rosa)

sexta-feira, 19 de junho de 2020

O ÚNICO MODO

Minha avó morreu
sem nunca ter andado de avião.
Sentiu dores a vida inteira,
mas estava no caixão com uma feição tão boa.
A mulher em Paris desfila de jatinho particular
pra onde quer, e vai morrer um dia
sem nunca ter feito bolas de sabão preto
ou costurado a barra da calça do marido.
Quem sabe explicar
o processo seletivo da morte?
Quem é que só vive contando com a sorte?
Acho bonito gente que chora controlado
no velório, tenho pavor de escândalo.
A lembrança da Missa de Sétimo Dia
põe bom quem quer que seja.
Quando eu morrer não quero lembrança
nem homenagem na missa,
pondo virtude onde eu tinha defeito.
Se alguém quer me dar um abraço
que dê agora, porque minha carne
é estragável e vai ficar
fria e rígida um dia.
Quando eu morrer,
o único abraço que quero
é o de Deus me pegando no colo.


- Wendel Valadares in (Re)descobir
Editora Penalux, 2015.


                                      Imagem: Wendel Valadares



REMEMORAÇÕES

Quando eu falei que queria casar 
e ir morar na capital 
minha mãe ficou roxa de raiva 
e quebrou dois copos 
enquanto lavava vasilha. 
Lembro-me desta tarde lá em casa:
as vasilhas no jirau, 
os cacos no chão, 
minha mãe tratando das galinhas 
e eu engasgado 
de desejo e culpa. 
Queria não ter nascido. 


- Wendel Valadares in (Re)descobrir 
Editora Penalux, 2015. 



                                     Imagem: Acervo pessoal

sexta-feira, 29 de maio de 2020

CARTA PARA A.


Querido A. 

por que é que quando escrevo faz sempre tanto tempo. parece que estou há milhões e milhões de quilômetros de distância do agora. meu pensamento viaja mais rápido que a velocidade da luz, mas não é o suficiente, eu nunca alcanço. às vezes fico a milésimos de segundos de chegar, mas aí paro ou me param ou permito que me parem, não sei. nunca sei. 
acho que não te contei sobre o ninho de passarinhos que destruíram na entrada da minha casa. faz alguns dias já, mas isso não quer se resolver dentro de mim. me cortava o coração ver os pardais voando ao redor, querendo voltar, mas sem ter pra onde, sem saber como. pensei nas tantas vezes que já quis voltar e não achei lugar. nas vezes que quis pousar porque minhas asas estavam tão cansadas, mas não achei ninho. os passarinhos continuaram, foram obrigados. eu também. 
os dias têm sido difíceis, muito compridos, pouco cumpridos. Uma espécie de sei-lá-deixa-pra-outra-hora-quando-eu-tiver-a-fim. mas, apesar da ansiedade, tenho conseguido ler um pouco, conhecer alguns poemas, ver uns filmes. ando saturado do instagram, - você também, né? - mas passo horas lá, vendo nada. por sorte, vezenquando, aparecem algumas coisas que me alegram, mas no geral tá tudo mais do mesmo - pra mim, é claro, sempre tem alguém achando tudo o máximo. sinto falta das tuas postagens. "música e literatura", eu amava. outro dia falei de você pra uma amiga, das suas resenhas. parece que você sempre sabia o que postar. admiro sua capacidade de planejar. eu sou do tipo escreve-e-posta-não-tô-nem-aí, mas na verdade eu tava sim. um martírio essa vida de agir e depois pensar, coisa de quem não sabe o que quer.
Tenho relido com mais frequência aquele texto sobre "curar o girassol nublado", sabe? então, tem dia que não cura, né. "nuvem negra" total, igual a música do Djavan. mas tem dia que cura sim, muito sol, passarinhos, um poema ou como costumo dizer pra uma amiga, pequenos salvamentos. 
gostaria de sentir que não é inútil escrever. gostaria que essa carta te salvasse. não sei de quê. não salva nem ela mesma. achei essa imagem - postada abaixo - e pensei que era nossa. a religião do girassol. tenho um livro com esse título. já te mostrei? é uma edição portuguesa. só o título já me salva. mas só o título é tão pouco, né, se a gente tem o livro inteiro?! às vezes acho que to ficando paranoico com esse negócio de reflexão. tudo me faz refletir. tudo. e, no final das contas, chego à conclusão de que tô muito ferrado. da cabeça, digo. Adélia tem um poema que diz assim: "invejo o bruto, o que enfia tudo no de todo mundo e não tem medo de Deus". ah, como invejo, porque tô sempre sentindo tanto. desculpe a interrupção abrupta, mas essa carta não tem final, eu só precisava escrever mesmo. sinto muito. 


                                    Imagem: © Joel Robison

quinta-feira, 21 de maio de 2020


"Tu vens, tu vens
eu já escuto 
os teus sinais..."


(Anunciação - Alceu Valença)

                                  Imagem: © Benoit Courti

"A voz do anjo sussurrou no meu ouvido":
- há de haver o tempo das flores.

As azaleias vão colorir as estradas
e as buganvílias vão ensinar ao vento
que é tempo de chegar. 

Os ipês vão desenhar setembros 
por todo o calendário. 

E quando o amanhã for "agora"
minha boca vai derramar margaridas 
nos teus ouvidos
e do teu peito brotarão lindos lírios.

Por dentro uma flor desabrocha
e, apesar do frio, faz sol. 

(Wendel Valadares)

sexta-feira, 15 de maio de 2020

LENDO MANOEL DE BARROS

eu queria fazer um silêncio tão grande
quanto o tamanho da minha 
insignificância. 

                                Imagem: © Krasimir Matarov

domingo, 3 de maio de 2020

DESCOBRIMENTO

                                                          

Dom que desejei ardentemente
e lamento não tê-lo ganhado
é o de cantar. 
Era aprazível meu desejo
de sair por aí musicando
qualquer palavra que saltasse
à minha boca, mas Deus
pôs ritmo nas minhas mãos.
Me deu um punhado de versos
e me mandou ser feliz
do jeito que eu desse conta.
Vocação é genética?
Minha avó fazia bolas de sabão preto
e ia pro córrego bater roupa na pedra,
depois voltava com a bacia de roupa
na cabeça, cantando os hinos
de São Sebastião.
E o que eu herdei disso tudo?
Só o olho maior que a barriga,
vendo fartura na miséria.
Aprendi a fiar palavras
e com elas quero tecer
uma imensa colcha de retalhos
para apaziguar o frio da alma
e cobrir o mundo de amor.
A cada novo verso que desabrocha
eu me (re)descubro. 

(Wendel Valadares no livro (Re)descobrir)

terça-feira, 31 de março de 2020


Onde é que se acha esperança? 
Quem vai consertar o mundo?
O que fizemos de nós? 

São tantas perguntas 
e não há resposta. 

Agora, só há o tempo
e ele nos devora. 

                                    Imagem: © Abdulrahman Alterkait