sábado, 9 de outubro de 2021

PÁSSARO PEQUENO


Passarinho que se debruça 
- o voo já está pronto! 

(João Guimarães Rosa)


                                         Imagem: © Aleah Michele

Contemplo o céu, esperançoso de que 
saberei mais uma vez o voo. 
É da minha natureza buscar o ninho e me demorar no pouso, 
mas meu coração necessita do azul para se expandir:
pássaro pequeno que abre a asas para viver. 


(Wendel Valadares)


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

PASSADO

As fotografias me ajudam a viver com mais esperança.

Quando a lembrança vacila, a imagem me transporta no tempo.

Fecho os olhos e quase posso ouvir o menino descobrindo o gato, as flores compondo a cena, os pés descalços.

É preciso fazer da memória um lugar de descanso.

(Wendel Valadares)



                                           Imagem: © Kevin Conor Keller


sábado, 4 de setembro de 2021

A FAZEDORA DE ASAS

 Uma asa 
à medida do teu voo, 
Uma casa   
em que moravas 
de todas as maneiras. 

(Inês Pedrosa)

Imagem: © Brian Oldham


quando o dia ameaça ceder lugar à nevoa
e o tempo estaciona as horas no ponteiro da dor

quando os sonhos dormem mais cedo
e a esperança é apenas um verso de algum poema
grifado num livro

quando o cansaço se impõe 
e as pessoas nada são além de vultos passageiros,
sombras desamparadas

quando as palavras, esquecidas de nascer, 
se agarram ao lápis e não conseguem 
mergulhar no papel

penso na 'Fazedora de Asas', 
cuja missão é criar possibilidades de voos 

há tanto céu esperando por nós
quando acredito nisso, me permito o voo

(Wendel Valadares

domingo, 8 de agosto de 2021

DOS ESCRITOS QUE, SEI LÁ...

Não saber é o que torna a vida possível. 

(Lya Luft)


                                     Imagem: © Kyle Thompson



Às vezes eu não sei o que fazer com tanto cansaço. 

Às vezes eu não sei o que dizer diante de tantas palavras. 

Às vezes eu não sei o que escrever diante de tanto silêncio. 

Às vezes eu não sei aonde mirar o olhar, já tão desacreditado. 


Às vezes eu não sei como existir.

Mas me pergunto: há alguém que sabe? 


(Wendel Valadares)

sexta-feira, 16 de julho de 2021

SABEDORIA

"somos uma só água."

(Kha Tembe)


                                       Imagem: © Aleah Michele


Meu amor,
pouco sei das matemáticas 
e das geografias.
Não entendo os planetas,
os cometas ou as estrelas. 
Nada sei de química ou física. 
Jamais saberia explicar
o funcionamento de uma célula
ou o processo de fotossíntese
de uma planta. 

Contudo,
sei da tua respiração ritmada,
conheço o som dos teus passos
e me recordo precisamente
da localização de todas as marcas
do teu corpo.

Agora
tudo o que me importa aprender 
é em qual lado do teu rosto
o sol amanhece.


(Wendel Valadares)

quinta-feira, 8 de julho de 2021

 Uma tal esperança imploro a Deus. 

(Adélia Prado)


                                               Imagem: Joel Robison


Desacreditar? Não!

Des - acreditar. 

Acreditar dez vezes mais. 


Eu precisava escrever qualquer coisa pra postar, 
só pra sentir que ainda tô vivo. 
A gente vai sobrevivendo como pode. 
Um abraço apertado em quem passar por aqui.
Fique bem! 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

DESCANSO

Me encontro em qualquer lugar
Perdido pra você me achar
Nas coisas que me esqueço...

(Amiúde - Roberta Campos)


Imagem: © Felicia Simion


Te escrevo, meio desorientado, dizendo que não sei mais quem sou.

Você responde sem vacilar: - você é bom. E isso é muito. 

Te digo que estou perdido e você me diz que basta ser fiel ao que sinto. 

Amor, pra mim, é isso: 
poder descansar minhas inseguranças no colo das tuas certezas. 


(Wendel Valadares)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

RESPIRO

Escrever é uma maneira de sangrar.

(Conceição Evaristo - Olhos D'Água)


Imagem: Diggie Vitt


Uma pausa para estancar o sangue. 


Como diria Fernando Pessoa:
"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

domingo, 27 de setembro de 2020

PARA JAYA MAGALHÃES, PORQUE VOA


"Mas hoje eu sei o que quer dizer esperança, 
podem me perguntar que eu sei. 
Só não posso responder."

(Lygia Fagundes Telles - As horas nuas)


 Querida Jaya, 


eu tinha um milhão de palavras pra escrever, mas tudo que consegui foi ficar em silêncio. Fechei os olhos e as palavras se deitaram no meu peito. É tipo o sol deitando no horizonte, dizendo tanta coisa, mas sem nenhuma palavra. A gente tem tanto a aprender com o silêncio, não acha? Tenho pensado bastante no quanto é importante não dizer. Meu Deus, pra quê essa necessidade de falar o tempo todo, não é mesmo? 

Tô enfrentando alguns desafios no trabalho. Sabe quando as pessoas extraem o seu pior? Eu tenho tanta coisa boa pra oferecer, mas às vezes me sinto "contaminado" e vou deixando gostos amargos nas pessoas, nas coisas, em mim. Fico querendo discutir, justificar, esclarecer, provar a todo custo que eu tava certo, quando na verdade não tem certo ou errado. Quando na verdade não vai mudar o que já foi feito. Difícil perceber que a gente tá indo por um caminho contrário, mesmo que a contragosto. 

Quando me sinto assim gosto de caminhar descalço pela casa, deixar os pés sentirem o gosto do chão, tomar banho de mangueira no quintal, prestar atenção nos pardais que, vez ou outra, arriscam um pouso pra pegar alguma comida ou inseto, essas coisas simples que nos colocam em sintonia com nossa essência. Gosto de sentar ao sol no fim da tarde, fechar os olhos e pedir ao astro rei que me ilumine de luz e sabedoria. Depois escolho um poema - geralmente da Adélia - e leio em voz alta, várias vezes. É tão difícil ter sabedoria, não acha, minha amiga? Saber o que fazer e como fazer, saber quando fazer. A gente quer agir no impulso e acaba desencadeando uma sucessão de acontecimentos e, até mesmo, mágoas. Preciso aprender a calma, controlar os impulsos, extrair a coisa boa que eu sei que tenho e posso oferecer. O tempo tá passando tão rápido e tem tanto doce pr'eu provar, pra que ficar mastigando o amargo, né mesmo? 

Jaya, acho que você não se lembra, mas uma vez - já faz uns três anos - você me desejou um abraço cheio de asas. De lá pra cá eu sempre penso nisso, nesse abraço capaz de fazer voar. Acho que essa é uma das coisas mais preciosas que esse vírus maldito nos roubou, o abraço. Porque a gente, tô te incluindo nessa porque te conheço, a gente gosta de entrelaçar os braços, coração com coração. A gente gosta de gente de verdade, que abraça forte, que chora e sorri com o corpo inteiro. A gente gosta de vibrar junto. E tá tão difícil essa distância, essa secura, os sorrisos escondidos atrás das máscaras, as mãos longe. Mas eu tenho esperança que logo logo haverá novamente o tempo das asas. Sairemos de nossos ninhos e vamos entrelaçar nossos braços fazendo voar todo mundo que a gente ama. 

Eu sei que tô bastante cansado e tenho reclamado muito, mas eu tenho esperança sim. Ah, eu tenho muita esperança, é que as vezes não consigo dizê-la. Tipo as cigarras, que gritam porque acreditam. Eu acredito e grito também. 

Minha amiga, desejo a você um tempo de aprendizado e, assim que possível, muitos braços pra te fazerem voar, porque eu sei que você voa. 

Te quero um bem que nem sei dizer. 

Wendel



Ps. Tava aqui escrevendo e uma cigarra começou a cantar. Alguma coisa boa vai acontecer. 


Ps. Se encontrar algum erro de ortografia, por favor, releve. Escrevi e postei. Se o erro for gramatical, fique feliz por mim. Morro de medo de ser um estudante de letras daqueles chatos que não sabem mais errar. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Falar 

d   e   v   a   g   a   r
acompanhando 
o ritmo
a rima
a alma
a calma.


p  o  u  s  a  r
o olhar 
sobre 
as sobras 
os restos
os rastros
os astros.

e n t e n d e r
o tempo
o vento
a vida
a ida.

ir. 

Vamos?


(Wendel Valadares)
Imagem: © Diggie Vitt