sábado, 17 de março de 2012

Companheira Amiúde

Já são três horas da madrugada e eu não durmo
Não que o sono não tenha vindo,
Ele veio, amiúde e perspicaz,
Mas mandei-o embora pra longe de mim.
Eu quero dormir, mas não posso,
Não consigo fechar as pestanas e repousar.
Há um som de festa quebrando o silêncio,
A chuva vai e vem, indecisa e perene.
Sinto fome, frio, calor, cansaço, vazio,
Tenho sede e sonho infinitos,
Minha cama é meu túmulo aberto,
Nela repouso meu corpo estafado
E ressuscito, todas as manhãs.
Arranco da face esse sorriso ensaiado,
Minha nudez é cética e alva
E o meu reflexo sou eu sem escrúpulos.
Ninguém me esperava essa noite,
Cheguei em casa e eu era o todo
E preenchi todos os espaços, menos o meu.
Há um oco no meu estômago,
Uma fome colossal de um não sei o que,
Que eu devo buscar não sei aonde,
Pra fazer sabe-se lá.
Tenho respostas sem perguntas
E vozes secas, sem melodias.
Observo os porta-retratos
Que tenho em meu quarto,
Guardam risos congelados e
Olhares estáticos. São mudos.
Estou mais silencioso do que a noite,
Quero falar e não sei
E se sei não há pra quem dizer.
Divago nessa página branca
As vozes que calo todas as noites,
É dela que ouço conselhos prudentes.
E agora que a hora já vai adiantada,
Eu cesso meu falar, emudeço inteiro,
E entoo um lamento feliz,
Boa noite página,
Obrigado pela companhia.

(Wendel Valadares)

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Um comentário:

  1. então o que posso falar se não que diante da imensidao que a poesia abrange,pois tudo se pode fazer poesia diante dos olhos e da alma de quem a sente...gostei muito dessa nova ideia já que poesia transbordante deve chegar aos confins dos coraçoes...

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