quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Melodia

Ausência não significa estar longe
Nem tampouco passar alguns dias sem notícias
O nome disto é distância ou correria.
Ausência é não estar dentro
É não fazer a diferença onde você se encontra
Tem gente que já morreu
E é muito mais presente que muito vivo
Ou morto-vivo, diga-se de passagem.
Já discorrido em outros versos
Ensinava a poetisa, sabida das coisas:
“Pra se ter sentido na vida
É preciso tocar o coração das pessoas”.
E pra tocar os corações
Precisamos de ritmo, voz e melodia.
É no silêncio que conhecemos nossas fraquezas
Mas é cantando que as vencemos.

(Wendel Valadares)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Rotina

De manhã, o sol estalou radiante
Levanta e veste o seu melhor sorriso,
Gritava o dia, esperando por mim
Espreguicei-me, como quem pede mais cama
E quase que involuntário pus-me de pé
Rotina costumeira de toda manhã
Limpar as remelas e escovar os dentes
Abrir as tramelas e respirar ar puro
A vida tem a cara que gente mostra
E os sonhos tem a cor que a gente pinta
Ganhei uma caixinha com 36 lápis de cor
E tenho imaginação infinita
Sugestivo?!

(Wendel Valadares)

Fantasia

Sonho é combustível
Move os meus carros
E os meus sentidos
Moveu meu sorriso
Compro sonhos na padaria
Mas tem dias que prefiro
Doce de leite
Guardo os sonhos numa caixinha
Embaixo do travesseiro
E quando enjoo de doce
Apago a luz do quarto
E como sonhos, dormindo!

(Wendel Valadares)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Metade

Tenho meia laranja
E meia hora pra mudar de vida
Estou com metade das forças
E minha coragem foi dividida ao meio
Estou meio contente
E tenho meio sonhos
Como faço pra seguir adiante?
Sou inteiro
De metade eu só tenho tristeza
E ainda divido ao meio
É o meu meio.

(Wendel Valadares)

Andarilho

Eu não acredito em destino,
E também não desacredito quem crê.
Mas cá pra nós, tem coisa que parece sina,
É pra ser e é. Não tem jeito de fugir.
Conformismo é uma palavra feia,
Deus me livre de estar satisfeito.
Quero é ver o rio correndo ao contrário!
Minha fome de viver é gigante,
Tenho olhos de comer o mundo
E pés dispostos a escalar os montes.
Fui buscar lá na origem do nome,
Pra ver se eu achava quem me explicasse
Encontrei: Andarilho!
Se já estava escrito eu não sei,
Mas agora quem escreve sou eu.
Meu nome já está definido,
Mas o sobrenome vou ganhando nas andanças.
Virei colecionador de pedaços,
Tenho um baú do tamanho da alma
E uma vontade louca de sorrir.
Há pouco descobri e afirmo:
Somos todos peregrinos,
Esta vida é só um caminho,
A chegada está mais além.

(Wendel Valadares)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Intenso

Pôr do sol é lindo, eu acho
Adoro ver o céu alaranjado
Colhendo a última claridade do dia
A noite também é bonita
Mas eu prefiro a manhã
Apesar de querer sempre uma sombra
Pra tomar suco de tamarindo
E conversar com os amigos
Gosto de escrever cartas
Mas recebo poucas, penso eu
Meu endereço deve ser difícil
Minha flor preferida é o girassol
Acho parecido comigo
Também gosto de flor de maracujá
Tem cheirinho de gente limpa
Chuva é coisa boa, traz sempre alegria
Gosto de chupar melancia
E jogo a semente no quintal pra ver se brota
Minha cantora favorita é Elis Regina
Deus como ela canta e encanta
Aprendi a ver poesia em tudo
Em cada acontecimento
Em cada gesto e em cada escolha
Mergulhei num mar poético
E não quero voltar à superfície
É o profundo que me atrai
Não quero subir na vida
Quero entrar no infinito

(Wendel Valadares)

Coisa de gente normal

Dor de dente é uma coisa encravada mesmo
Isso pra não dizer outros palavrões
A gente passa o dia todo comendo de tudo
E o “bendito” do dente nem dá sinal de vida
Mas quando chega a noite, ai ai ai
Nenhum dentista de plantão
O senhor incomodo desatina a doer
E dói, dói, dói e doí mais um pouco
E não há remédio que passe a dor
Nem adianta tentar dormir, não dá
Nem o sono suporta dor de dente
Mas incrivelmente a gente sobrevive
Nem sei como, mas o dia chega
Vamos ao dentista? Nãããão!
Vamos comer tudo que temos direito
E esperar a noite chegar
Vai entender, coisa de gente normal

(Wendel Valadares)

Flor do Campo

A felicidade é como uma flor do campo.
Sim, aquelas florezinhas singelas
Que vemos por aí a beiro d’algum caminho
E que, vez ou outra, vamos ignorando
Por não termos tempo para apreciá-las
Elas brotam nos locais mais inóspitos
Assim é também a felicidade
Nasce dos acontecimentos mais insignificantes
Nas horas mais inusitadas e improváveis
Mas nosso olhar de cobiça, não nos permite olhar para baixo
Não nos deixa enxergar aquilo que por hora parece pequeno
Olhamos sempre com pressa, sempre passando
Queremos sempre comprar flores caras
Quando tudo o que precisamos é de uma flor do campo
Tudo o que precisamos é de simplicidade
Tem felicidade brotando na sua estrada
Colha-a!

(Wendel Valadares)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lava Louça

Lavar louças é uma terapia,
Bom, pelo menos pra mim.
É o tempo que eu dedico pra pensar.
Vou lavando, ensaboando e pensando;
Penso na vida, nos problemas,
Nos amigos, nos amores
 – os que tive e os que ainda pretendo –.
Vou me conhecendo e me reconhecendo,
Vou encaixando os sentimentos
Nos seus lugares devidos,
E quando lavo uma panela mais difícil
Reflito comigo:
Alguns problemas também são assim,
A princípio parecem impossíveis de se limpar,
Mas com um pouco mais de esforço
E um reforço de sabão e detergente,
A sujeira dá lugar ao brilho.
Vou lavando e matutando,
Lavo um garfo, lavo um copo,
Lavo um prato...
E no fim, lavei a alma.

(Wendel Valadares)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Passageiro

Dias brancos regados de luz do sol
Sombra amena das arvores dançantes
Tesourinhas cortam os céus
Com seus voos rasantes
Cortam também os meus anseios
Minhas dúvidas e minhas certezas
As nuvens tem formato de coração
Não, não, acho que é um barco
Sim é um barco velejando na imensidão
Levando embora meus tesouros
Deixando apenas os meus vagos
Meus sonhos doces e amargos
Esqueço que a hora passa
Que os medos passam
Que a dores passam
Que as ilusões passam
Esqueci que a vida passa
Mas quem não passa
Eu passo. Passei;
Nem lembrei de viver

(Wendel Valadares)

Poesia é lente

Poesia é também fotografia,
Grava e imprime na memória
Aquele momento único, inédito
Em que as lentes do meu olhar
Souberam captar a imagem perfeita, “in foco”.
E quem há de apagar essa lembrança extasiante,
Daquele casal de araras azuis
Cruzando o céu infinito, as asas em forma de cruz.
A borboleta amarela, voando toda singela
Sobre as flores do campo.
As flores do maracujá abertas a esperar
A abelha cumprir a sina.
A rosa despetalada, enfeitando o quintal
Pra menina brincar de noiva.
É indelével a cena, do sol nascendo na serra,
Trazendo no colo a esperança.
Fotografar é olhar mais de perto
E com paciência pra “olhar bem olhado”.
E a poesia entra na cena, olha cada detalhe,
Vê beleza além da aparência
Grava não só a imagem,
Mas os cheiros e os sons do universo.
Ela – a poesia – nos abre um leque de possibilidades
Basta saber aproveitá-las.

(Wendel Valadares)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Tome nota

Pra quem anda despercebido,
Achando que como num passe de mágicas
A felicidade vai saltar na sua frente e te agarrar pra sempre,
Sinto muito em ser eu a te dar essa notícia
Um tanto quanto assombrosa:
A felicidade já tentou fazer isso inúmeras vezes
E você nem se deu conta.
Mas não precisa se desesperar
Achando que tudo está perdido,
Ela não vem só uma vez.
Não é verdadeira essa lição de moral que diz:
Você só tem uma chance para ser feliz
Você pode ser feliz quando quiser,
Independente de quantas chances tenha desperdiçado,
A felicidade salta à sua frente o tempo todo,
Prega no seu pé que nem carrapicho.
A pergunta em questão é a seguinte:
 Você quer ser feliz?

(Wendel Valadares)

Poema de Terra Boa

Aqui na roça a vida começa mais cedo,
É a gente que levanta pra esperar o sol,
E quando ele aponta lá no topo da serra
O café já tá torrado e moído,
O quintal já quase todo varrido
E o bolinho de chuva saltita na gordura quente.
De domingo a domingo a alegria é costumeira
E serviço tem aos montes pra quem queira,
E pra quem não queira também.
Água boa é buscada no açude,
Faz uma “rudia” e traz a lata na cabeça
Tem gente que é equilibrista nato.
Arte é coisa comum aqui nessas bandas,
De tudo vê-se um pouco, tem até cantor famoso;
De artista plástico a contador de causo,
Invenção de moda é o que não falta.
Mas o que mais encanta nesse povo simples
É que “dificulidade” não é empecilho pra ninguém.
No viés e enviés o bordado tem formato de afeto,
Felicidade é estar vivo, o resto é consequência.
Deus rega, mas eu que preparo a terra,
Quem quiser brotar tem que por as mãos no arado.

(Wendel Valadares)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Crença

Cá em Minas Gerais, domingo é dia Missa.
Todo mundo separa aquela roupinha mais nova,
As mulheres vaidosas passam o dia com bobes no cabelo
E andam ligeiro nos afazeres da casa,
Que é pra não chegarem atrasadas.
Na porta da igreja sempre tem uma prosinha boa;
É um “cumpadi” que há muito não se via,
Ou a “cumadi” que cortou o cabelo,
E a conversa sossegada espera o padre chegar.
Começa a missa e o povo todo canta junto,
Bate palma e levanta as mãos num gesto bem natural.
Na hora da paz o abraço é de praxe,
É paz de verdade que um deseja pro outro.
Quando a missa termina todo mundo quer falar com o padre,
E este por sua vez sabe o nome de cada um,
E aceita convite pra comer frango noutro dia.
Cá nesse pedacinho de mundo, escondido detrás da serra,
É a fé que sustenta o povo.
Das mãos calejadas do cabo da enxada,
Até o queijo com rapadura de dona Maria,
É Deus que ajuda.

(Wendel Valadares)

Retrocesso

Há tanta gente por aí inventando moda,
Esse desenvolvimento “tecno-ilógico”
- ouvi essa expressão e achei um máximo –
Tem nos furtado valores irrecuperáveis.
Existem tantos meios de comunicação,
Fáceis e acessíveis e velozes por sinal,
Mas que não tem lá muita serventia.
As pessoas não se comunicam mais.
Entramos todos numa espécie de casulo,
Que é nutrido de estranhezas e aversões.
Oxalá pudéssemos retomar os tempos idos,
Que outrora fomos despindo como roupa velha.
Não digo regredir ao passado,
Refiro-me as essências que tínhamos
E que foram cedendo lugar ao esfriamento.
Ah, quando chegava uma carta,
Antes de abri-la o coração acelerava
E as mãos trêmulas suavam frio.
Não vinham ali somente letras e palavras
Ela estava regada de sentimentos de bem querência.
Não sou cético, sei que evoluir é preciso,
Mas sem atropelar aquilo que nos faz humanos,
Sem engolir nossas essências,
Não precisamos de mais indigestão.

(Wendel Valadares)

Memória Sadia

Nos tempos áureos de uma vida sã,
“Menina moça” já nascia sapiente.
Ser dona de casa era ofício certo;
Brincadeira era de comidinha.
Bom mesmo era nascer moleque,
Serviço tinha aos quantos houvessem
Mas, um pulo lá e um pulo cá
E a malandragem corria solta.
Rapaz de bem trabalhava cedo
E tirava o chapéu pra moça formosa.
Namoro era sentar do lado;
E quando, por acidente esbarravam-se as mãos,
O coração disparava no peito.
Respeito era coisa sagrada,
Quem mais viveu mais sabia ensinar,
E ai do menino se não prestasse atenção.
De noite, quando fazia frio,
Todo mundo “quentava fogo” na cozinha
E ia dormir com cheirinho de fumaça,
Era cheirinho de gente sã.

(Wendel Valadares)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Poema de gente simples

Com todo o respeito e admiração, peço permissão a Carlos Drummond de Andrade e a Adélia Prado para o meu poema acontecer, inspirado em "Poema de Sete Faces" e "Com licença poética".


Poema de gente simples


Quando nasci um anjo alegre,
Desses que cantarolam nas nuvens
Disse: Vai escrever poesia.
Coisa já esquecida nesses dias mornos.
Oficio de gente culta, graduada,
Tentaram criar regras e domesticar a escrita.
Eu não, pulei cerca e dancei na chuva,
Comi manga verde e tomei leite,
Nem de morte eu lembrei.
Dei risada até doer a barriga
E contei causo de assombração só pra fazer medo.
Minha obrigação é de ser feliz.
Escrevo sem fazer uso dos bons termos,
Palavras difíceis não cabem na minha boca.
Aceito de bom grado as rejeições,
Ser simples não é pra qualquer um.
Tem gente pagando pra ficar cego;
Eu não. Eu vejo até de olhos fechados.

(Wendel Valadares)

Lembrança boa de uma criança crescida

Tive infância sadia
Meu pai, homem casto
Mudava o canal da televisão
Quando passava beijo na boca
Família numerosa
Sobrava menino pelos cantos
Molecagem era tomar banho de chuva
Jogar “bete” com uma bola improvisada
E brincar de rouba-bandeira até escurecer
E quando escurecia, logo no pé da noite
Minha mãe já vinha certeira
-Vai tomar banho menino,
Que nós vamos rezar o cenáculo
Mais riso do que reza, mãe ficava brava
Mas depois cedia e ria também
Bobagem atoa, era motivo de gargalhadas
Acabava a reza, tinha leite com café
“Bença” mãe, “bença” pai
- Deus te abençoe, dorme com Deus
Amém, dome com Deus também
E ainda hoje, depois de homem feito
Meu leite com café vem seguido de “bença”
Sou criança de novo!

(Wendel Valadares)

Sobre Idas e Vindas

É bom voltar de vez em quando
Retornar, volver ao inicio
Afinal de contas, a vida não é feita só de idas
A volta é fundamental
Temos essa necessidade, esta ânsia
De beber novamente as águas puras da nascente
De nos entronizarmos na fonte de nossa essência
Na correria desses dias enevoados
Vamos nos perdendo, nos confundindo
Nos inebriando de falsas verdades
Voltar é buscar conforto, abrigo
Voltamos porque é assim que medimos
O quanto já caminhamos
Voltamos porque precisamos de raízes
Que nos mantenham firmes
Voltar não é regresso, disso passa longe
É reabastecimento, restauro
Voltar é alimento sadio
Voltemos, pois, com a confiante certeza
De que é assim que se avança

(Wendel Valadares)

Dia azul

Clima ameno, céu azulado
Sombra do pé de abacate
E um bolo de mandioca
A prosa é das "mió" possível
Vejo a arte nos gestos da minha mãe
E nas palavras sabidas do meu pai.
Escutar é uma dádiva
Prestar atenção nos detalhes
Nas sobrancelhas que se exaltam
Na testa franzida contando causo
Naquele sorriso disfarçado
Escapulido no canto da boca.
A mãe põe as mãos na cintura
E olha séria, pro menino custoso
Poesia é isso
Escrever é só o ofício
Antes  de ser impressa
Ela já está viva dentro de nós.

 (Wendel Valadares)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Bagagem

Sou feito de cores e da ausência de tons
Tenho contornos esmiuçados que justificam os vagos
Mas não me explicam apenas me desenham
Sou feito de carne, tenho pele serena
E dores latentes
Mas não me curvo a elas, me venço
Sou feito de sentimentos, que estimulam meus impulsos
Tenho amores platônicos e desilusões nos afetos
Sou feito de sentidos, que me apontam caminhos
Tenho olhar compassivo e ouvidos atentos
Um olfato aguçado, paladar apurado
E um tato sensível
Sou feito de vida e sou feito a vida
Caminhando é que sei caminhar
Trago bagagem leve, lembranças boas
E sorrisos largos
Eu sou

(Wendel Valadares)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Verbo, palavra e o Verbo

E o Verbo – Ele, Deus – fez-se homem como nós.
E nós - homens - nos fazemos verbo, mas não somos como Ele – Deus – que é o Verbo eterno e verdadeiro.
Nosso verbo – palavra – tem o dom de eternizar, gravar, afixar aquilo que se apregoa. E se este “aquilo” brota do profundo da alma, o sentimento que ali se vincula, perpetua-se também, impregnado no sentido da Palavra.
O Verbo – Deus – é eterno por excelência, e o verbo – palavra – torna-se eterno por essência, pelo poder que nos foi cedido pelo próprio Verbo, de fazer sagrado tudo aquilo que a alma toca e toca a alma.
E o Verbo é a vida e Dele faz germinar toda a vida, e a própria vida nos encaminha para o Verbo, num curso natural e acertado, como um rio que flui desejoso de se derramar na imensidão do mar, onde assim, infinidade e pequenez tornar-se-ão uma só alma.
Voz e Verbo, Verbo e voz serão um só canto. O canto da Paz!
(Wendel Valadares)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Escreve menino

Escreve, escreve menino, vai ouvindo essa voz afluindo de dentro do ser.
Escreve, vai deixando esse canto ser elo entre a terra e o céu.
 Vai ligando e unindo o sagrado ao que é belo e feliz;
Restaurando os reflexos e preenchendo os espaços dessa pobre matriz.
Escreve, escreve depressa os sussurros da alma e as vozes do coração,
Que é para a razão não lhe fechar os olhos e os ouvidos.
Escreve, só escreve, que a vida se encarrega de musicar os teus versos
(Wendel Valadares)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O canto das Estrelas

Adentro a madrugada
Como quem desbrava uma selva
Vou abrindo caminhos
E descobrindo detalhes
Sem saber o destino certo
Mas sem medo de chegar
Perambulo na noite
E faço dela o meu dia
Observo o relógio
Ritmando o som da noite
E ouço também outros sons
A noite tem trilha sonora
Descobri que as estrelas cantam
E a melodia é sempre agradável
Cantarolam seus segredos
E as paixões que despertaram
Jogam feitiços de encanto
E fazem arder os poetas
E é nelas que eles se transformam
Quando vestem a seda da morte
Viram estrelas astros
E buscam novos amantes

(Wendel Valadares)

Tecendo a Vida

Quisera eu partir para o longe
E quem sabe mais perto chegar
Daquilo que se me distancia
Da essência que me faz amar

E partindo eu talvez partisse
Os inteiros que me dividem a alma
E de longe não haveria apego
Aos muros que me tiram à calma

Embora seja eu voraz
De utopias sobrevive meu ego
E os sonhos que trago no peito
Ah, desses não me desapego

De verdades e dores latentes
Eu me faço ser gente feliz
Quero beijos e amores sinceros
Quero ser um eterno aprendiz

Vou partindo e juntado pedaços
E tecendo meu mundo encantado
Faço amigos e deixo saudades
Minha vida é um imenso bordado

(Wendel Valadares)



Sozinho

Nasce o sol e ligeiro passa o dia
Chega a noite e com ela sempre a lua
Sopra a brisa e as nuvens acompanham
E eu aqui, sempre sozinho

Corre o rio e correm peixes a nadar
Pássaros alegres cortam o céu azulado
Bailam as árvores com seus galhos
E eu estou sempre sozinho

Crianças brincam alegres pela praça
Enquanto seus pais conversam
A buzina anuncia o sorvete
E eu permaneço sozinho

Mãos se apertam e se entrelaçam
Abraços distribuem seus afetos
Enquanto o mundo caminha
Eu fico aqui, sempre sozinho

À tarde todos voltam pra casa
E se sentam pra jantar com a família
Os olhares cheios se completam
Mas meu destino é ser sozinho

(Wendel Valadares)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Presença

No vento o verso avesso
Espero, cobro e cesso
E a palavra permite o acesso
Pra que a presença se faça

Presente eu me faço, afirmo!
Desdobro-me e me mostro firme
Se cobro, me dou e me faço
Cesso-me e me entrego livre

Faço, falo, olho, ouço e sinto
E a palavra faz sentido seguro
Empresto-me inteiro ao que posso
Não guardo reservas de essência

Estou por estar e sou livre
E livre eu teci meu querer
E a palavra que veio no vento
Desbravou meu mistério de ser

(Wendel Valadares)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Vazio Particular

A noite me instiga e me intriga
Basta o sol se por pra que eu mude
E mudo, permuto os sentidos
E adentro o inatingível, penso

O silencio incita e aguça os instintos
E os olhares percebem as minúcias
Ouço cuidadosamente os palpitares
Que rufam como tambores ressoantes

A memória traz a tona os rostos
Os gestos e as vozes que não estão
A ausência ocupa os lugares vazios
E a lembrança ressuscita o apego

É na noite que a saudade açoita
E a falta faz doer o coração
As carências afloram e deploram
E o querer só quer saber de querer

Porque existe em cada ser humano
Um lugar especial, um vazio particular
Um templo dedicado e um teto erguido
Que está sempre esperando por alguém
(Wendel Valadares)

Reflexo

Olho no espelho
E não vejo meu reflexo
Vejo um vulto perplexo
Uma imagem sem nexo
Me perdi de mim
Não sei me ver
Talvez seja o espelho
É, talvez...

Recomeço

Eu gosto tanto de você
Que na maioria das vezes
Faço tudo errado
E acabo te fazendo ir embora
Quanto mais eu te quero por perto
Mais distante você fica
E o que parecia uma simples barreira
No final se transforma em muro
Por vezes nossos caminhos
Levam-nos ao desencontro
Encaminham-nos para o começo
E os passos dados são desfeitos
E as palavras ditas, perdem-se no vento
E os sentimentos que eram tão verdadeiros
Ah, os sentimentos! Esses ficam
E remoem, e doem, e incomodam
E remexem, e reviram, e revivem
Revivem as lembranças, as dores
As alegrias, as conquistas
Os progressos, ora devagar
Ora a passos largos
Mas sempre progredindo
E o final, existe?
Onde? Quando? Por que?
Talvez seja essa a grande mística da amizade
Voltar ao começo
Refazer os passos
Porque assim, estamos sempre no início
E nunca perto do fim


(Wendel Valadares)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Insônia

Olhos fixos e bem abertos
A noite chega e o sono se vai
São dois paradoxos, duas incógnitas
O tempo está seco, quase não venta
O tic-tac do relógio faz pressão
Dorme criatura, dorme criatura
E lá vem o dia chegando
Chamando pra vida lá fora
E vem sempre acompanhado
Trazendo consigo o sono
Mas esqueceu de parar o tempo
Que pena sono
Não vou lhe fazer companhia
Toca o despertador

(Wendel Valadares)

Encanto

E o encanto que eu canto
Me canta e encanta
Olho e me espanto
E a beleza é tanta
Que de novo me espanto
E me encanto
E canto...

(Wendel Valadares)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Rara Flor

No infinito do horizonte
A flor rara faz morada
Misteriosa ela se esconde
Foge antes da alvorada

Com um brilho encantador
Ilumina a noite escura
Com aroma sedutor
Encanta toda criatura

Formosura reluzente
Raridade sem igual
Flor charmosa, envolvente
Força sobrenatural

Simples flor, com tal apreço
Eu quisera encontrar-te
Mas tal glória, não mereço
Devo só admirar-te

Incompleto que me vejo
Busco sempre algo a mais
Ver-te ó flor é meu desejo
Tua beleza me compraz

Em saber que és real
Eu me encho de alegria
Flor assim não há igual
És encanto e magia

(Wendel Valadares)

Eu só quero ser feliz

De nada me vale
Essa vida tão corrida
Guarnecida de pudores
Que de nada fazem jus

Serventia não me tem
Essa moda que me impõe
Que eu seja só assim
E esqueça quem eu sou

Necessidade não há
De querer sempre ganhar
E esquecer o coração
Que às vezes quer se dar

Não preciso que me guiem
Eu só quero caminhar
Ver de perto o por do sol
E acordar na primavera

Passe logo o que é externo
E se aparte a solidão
Que da vida eu colha o fruto
Eu só quero ser feliz

(Wendel Valadares)

Anjo Amigo

Tem anjo por aí virando gente
Perdendo as asas e a aureola
Mas com o mesmo cuidado
E a dedicação costumeira
Cuidam e protegem de graça
Pelo simples gosto de cuidar
Usam disfarces e máscaras
Não querem reconhecimento
E nem pedem recompensa
Até cobram, mas o preço é justo
Um abraço forte e um sorriso sincero
E de quando em vez um obrigado
Esta é a paga que exigem
Descobri um anjo desses
Rondando pelo meu caminho
E tratei logo de prendê-lo
Não o pus numa gaiola
Mas guardei no coração
E vez ou outra vou vê-lo
Na esperança de eu também
Ser-lhe anjo, retribuir
O nome dele: Amigo

(Wendel Valadares - em homenagem ao meu amigo Maicon, pela ocasião do seu aniversário)

Farol

A vida é bem assim, simples e complicada
Os dias podem ser claros ou escuros
E isso não depende do sol
Porque ele brilha até pra quem não o vê
A claridade nasce é da alma
Brota do fundo e transcende pela face
E o nosso sorriso é a expressão mais pura
De que lá dentro, o brilho dissipou a sombra
E por mais que os dias sejam amargos
Meu sorriso vai ser sempre um farol
Uma lanterna potente
Com poderes ilimitados
De arrancar outras pessoas das trevas
E trazê-las para a luz
Vamos iluminar

(Wendel Valadares)



Prosa

Pois cá pra mim
Poesia é feito prosa,
Ajunta-se a roda
E o assunto flui.
E haja assunto.
E não é de ver
Que hoje vai chover,
E no domingo
Quando chovia
Meu avô, homem feliz,
Ligava sua radiola
As cinco da matina
E despertava a casa,
Todo serelepe
Feliz com a visita.
E o disco de vinil
Anunciava ao povo todo
Que ali naquela casa
A alegria chegara
E viera com a chuva.

(Wendel Valadares -  Em homenagem ao meu Avô, Sr. Vital Valadares)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Queria escrever pra você

Aprendi tantas palavras, frases e significados
Estudei as concordâncias e pesquisei adjetivos
Quis me preparar, buscar meios e artifícios
Para que a escrita me fosse propícia
Queria escrever pra você
Bem conjugado o verbo querer: queria...
Não consigo, não posso, não sei
Enfileiram-se trilhões de palavras na minha cabeça
Brotam inúmeras ideias e surgem diversos desejos
Mas eu simplesmente não consigo
E confesso que a muito venho insistindo nesse desejo
Forçando as ideias a obedecerem a este anseio
Mas elas se negam e não se entregam
De antemão fiquei decepcionado comigo
Mas por fim, compreendi o que se passa
Entendi que não é possível transpassar para o papel
Tudo o que eu quero e preciso lhe dizer
São palavras que só podem ser ditas e desvendadas
Num olhar e num abraço sincero
Por que a amizade está além de qualquer escrita
Ela ultrapassa o nosso entendimento
E desagua no nosso coração

(Wendel Valadares)

Estranho Mundo Estranho

Eu acho tão estranho
Essa maneira estranha
Com que as pessoas estranhas
Demonstram os seus afetos
Buscam sempre frases prontas
E pegam sorrisos emprestados
Usam flores que não morrem
E não gastam mais a voz
Os passos já nem sabem mais
Aquele caminho marcado
Não vão e nem esperam, ficam!
É tudo tão simples e acessível
Ficou tudo tão superficial
Os amores já não são platônicos
As amizades já não são pra sempre
Os irmãos já não são amigos
A família já não é abrigo
As palavras são copiadas
E a fala é eletrônica
Onde ficou esquecida
A essência da nossa vida
Estão vendendo felicidade
Será que o seu cartão pode pagar?

(Wendel Valadares)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bem Querer

Porventura, seria muita ambição
Querer, pedir, desejar e procurar
Alguém que saiba ouvir meu silêncio
E desvendar o meu olhar sincero
Que fala bem mais que as palavras

Pode ser que seja demais
Alguém que me compreenda
E livre se comprometa
E que se sinta desobrigado
Mas que goste de cuidar de mim

Talvez seja pedir muito
Alguém que queira estar perto
Mas que respeite os meus limites
Pra que eu lhe entregue a chave
Que permite o acesso à minha vida

Acaso é querer demais
Alguém que saiba ouvir com os olhos
E que saiba falar com as mãos
Que extrapole nos sorrisos
E dissolva as mágoas num abraço

Por certo é exigir muito
Alguém que se pareça comigo
Que tenha sonhos utópicos
E que aceite o meu querer
Não mais que bem-querer

(Wendel Valadares)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Canção do Amanhecer

Eu acordei antes do sol
E fiquei a espreita da aurora
E num piscar de olhos eu me vi
E revi a minha história
Relembrei tudo que vivera até ali
Quantas noites escuras passei
Tantas vezes achei não haver mais luz
Mas agora já está amanhecendo
E eu estou aqui à espera do primeiro raio de sol
Para aquecer o meu coração
E mudar todo o meu viver
É a minha chance
De refazer os passos
Ou dar passos novos, quem sabe
É o agora que eu sempre esperei
De ser eu de novo outra vez
E fazer as mesmas coisas
E fazer tudo diferente
Porque está amanhecendo
Porque está amanhecendo.

(Wendel Valadares)